O silêncio como elemento cinematográfico


Segundo Gergen, Gergen e Barret (2004), um discurso adquire significado através do processo de interação. É com dois elementos ou mais que se relacionam, que se estabelece uma comunicação.

Uma das formas utilizadas de diálogo no correr da história são as manifestações estéticas da arte. Uma dessas manifestações mais recentes, o cinema, não se encaixa em ser apenas uma ilustração do pensamento e como instrumento de diálogo, aprofunda o olhar. A expressão popular diz que: uma imagem vale mais que mil palavras. Pois bem, essa produção audiovisual é capaz de criar roteiros que estabelecem uma relação aproximada entre quem produz e quem recebe, criando assim um diálogo entre o artista e expectador.
Em sua gênese o cinema era baseado na prospecção de imagens que buscava construir determinada narrativa. Com os avanços tecnológicos e a possibilidade de capitação e difusão sonora, a estética sofre modificações e os roteiros cinematográficos começaram a ser pautados majoritariamente em palavras que constroem narrativas baseadas em diálogo entre personagens.

Obras menos complexas e menos subjetivas apresentam um retorno comercial maior uma vez que a criação de público é mais facilitada. Contudo existem algumas produções estéticas diferenciadas no que tange a outras formas de diálogo.

Um exemplo que ilustra essa abordagem é uma obra intitulada “A Ghost Story” de David Lowery, lançado em 2017. Neste filme a forma de exposição a quem assiste é baseada basicamente em imagens e silêncio. Ele aborda a temática da pós morte para dois personagens: o que morre e assume o espectro de um fantasma e a sua companheira que fica. Segundo Noble (1999) o silêncio requer interpretação e incorpora ações. Essa foi a ferramenta usada pelo diretor para dialogar com que assiste. No caso do fantasma, seu silêncio é apresentado no seu cotidiano pós morte, em sua relação com o tempo, espaço e solidão. Já no caso de sua companheira que fica o silêncio é exposto de forma não convencional para o cinema, como por exemplo num certo momento de intensa fragilidade emocional pelo luto, a personagem come uma torta numa cena com 8 minutos de duração.


Assim, nota-se que em um contexto onde o diálogo possui certo padrão, é possível desconstruir formas hegemônicas de discurso e experimentar outras retóricas.

Figura 1 - cena extraída do filme A Ghost Story (2017)
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=KvlRbZiR-Lc

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