Democratização como mudança social no aspecto discriminatório em relação a gênero
Em seu
livro intitulado “Discurso e mudança social” a autora Norman Fairclough, discorre
sobre a possibilidade de democratização como tendência de mudança discursiva,
de forma que, afetando a ordem societária, provoca mudanças sociais e
culturais. Aborda a concepção de que existem privilégios e discrepâncias entre
indivíduos e grupos sociais inclusive nos discursos, e que a possível
democratização é resultante da minimização desses fatos. Em suas palavras:
“Por
democratização do discurso entendo a retirada de desigualdades e assimetrias
dos direitos, das obrigações e do prestígio discursivo e linguísticos dos
grupos de pessoas.” (P. 248)
Podemos,
assim, compreender que a democratização pode construir uma realidade afastada
dos padrões impostos e normatizados e, dessa forma, rompe com a hegemonia na
linguística em diferentes espaços e campos sociais.
O
gênero na linguagem é um exemplo com como a democratização vem sendo expandida na
linguagem, eliminando marcadores explícitos de desigualdades de poder. Esse
fato leva ao rompimento com a hegemonia não somente na linguística, mas,
também, em outras esferas, como por exemplo o número de mulheres em posição de
poder, que ainda pequeno e incomparavelmente menor, vem crescendo e
desenvolvendo práticas mais modernas nas interações intergêneros.
Um
exemplo dessa constatação pode ser observado em situações de fala onde as
mulheres são mais interrompidas em seus discursos e tem seu tempo de fala
reduzido com relação aos homens. À título de elucidação, vale citar a
entrevista pelo programa Roda Viva da TV Cultura à deputada Manuela D’Avila
(PCdoB-RS) quando ainda candidata a presidenta da república, no dia 25 de Junho
deste ano; que segundo o site da revista Carta Capital, foi interrompida 62
vezes na atração que teve a duração total de 70 minutos. Outros candidatos por
sua vez, tiveram 3, 8 e 9 interrupções em outras edições do mesmo programa.
Além
desse fato, outro aspecto discriminatório com relação a gênero, está no uso de
pronome, substantivos e respectivamente a conjugação verbal executada no gênero
masculino de forma genérica para se referir a todos os gêneros. Já essa mesma
estrutura usando o feminino é vinculada exclusivamente a um estereótipo
feminino. Isso assume situações ainda mais evidentes em países de língua mater
onde a construção linguística é intensa nas diferenciações de gêneros, como no
caso da língua portuguesa.
Um
exemplo dessa relação pôde ser observado na Mostra de Cinema de Tiradentes de
2017, onde o artista David Maurity era o mestre de cerimônias. Ativista LGBT,
provocativo e parte do coletivo Toda Deseo, um grupo de atores mineiros
envolvidos com questões relacionadas às pessoas Trans, fazia a abertura da
mostra todos os dias saudando a plateia com o dizer: “bom dia a todas!” O
incômodo era facilmente notado. Quando indagado sobre esse fato o artista confessou
que estava receoso de sofrer algum atentado ou retaliação por essa fala. Por
fim estava pronto a dizer: “bom dia a todas as pessoas” se justificando, já que
‘pessoas’ é genérico e está no feminino.
Assim,
partindo das concepções da autora, e dos exemplos que podem ser observados no
cotidiano social, pode-se notar que a democratização não é processo fácil,
principalmente nas questões de gênero. O enfrentamento das condições postas se
faz necessário para tornar as práticas linguísticas menos discriminatórias.
Felizmente existem muitas pessoas interferindo ativamente para essa
democratização.
Referência
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social nas sociedades contemporâneas. In: FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: UnB, 2001. P. 247-274.
MANUELA
D'ÁVILA GANHA APOIO APÓS OFENSIVA MACHISTA NO RODA VIVA. Carta Capital.
Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/manuela-davila-ganha-apoio-apos-ofensiva-machista-no-roda-viva>
Acessado em 03 de novembro de 2018.
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