Gramática e preconceito linguístico

Norman Fairclough, apresenta em seu trabalho profundas contribuições para a análise crítica do discurso quando discorre acerca de questões relacionadas ao uso do vocabulário, da gramática e da relação dessas com as estruturas sociais dos agentes sociais.

Em gramática é importante pensar a interação linguística em um contexto específico. No Brasil existe uma grande diversidade de regionalismos, sotaques, gírias e até mesmo dialetos que  vão se desenvolvendo com o passar do tempo e que acabam tornando-se elementos culturais, sociais e históricos de cada grupo específico. Muitas vezes a mídia constrói estereótipos de indivíduos falantes de linguagens regionais, reproduzindo e legitimando o comportamento de um usuário da linguagem formal que age de forma discriminatória com pessoas que se expressam pela sua linguagem local. O julgamento depreciativo contra determinadas variedades linguísticas e geralmente sofridas por grupos de menor prestígio social é chamado de preconceito linguístico. É de se notar que o preconceito acentua a desigualdade social e que os falantes da norma culta possuem privilégios, como maior escolaridade e, como o preconceito é fator de exclusão social, bate de frente com a análise crítica do discurso.

Em sua obra “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz” (1999), Marcos Bagno, professor, linguista e filólogo aborda sobre os diversos aspectos da língua bem como o preconceito linguístico e suas implicações sociais.

“É um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala nordestina é retratada nas novelas de televisão, principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem nordestina é, sem exceção, um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado para provocar o riso, o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador. No plano lingüístico, atores não nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em lugar nenhum do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte! Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão. (...) Se o Nordeste é “atrasado”, “pobre”, “subdesenvolvido” ou (na melhor das hipóteses) “pitoresco”, então, “naturalmente”, as pessoas que lá nasceram e a língua que elas falam também devem ser consideradas assim... Ora, faça-me o favor, Rede Globo!”

Exemplificando a disparidade de compreensão de dialetos, gírias e sotaques, pode-se analisar o seguinte fato. No início de 2018, a funkeira pernambucana Mc Loma alcançou enorme sucesso com o hit “Envolvimento”. Na execução da música a cantora faz uma série de interferências com gírias e expressões locais de Pernambuco. Como a música estava em evidência em todo o Brasil, a artista gravou um vídeo apenas para explicar as expressões locais contidas na canção, conforme vemos a seguir:





Assim, nota-se que o Brasil possui diversas variantes linguísticas, fruto das particularidades dos vários contextos. Aqui nossa língua está em constante transformação e não existe uma forma “certa” ou “errada” de se falar. É natural que um usuário da norma culta que desconhece o contexto queria corrigir outro que não faz uso da formalidade numa situação específica ou no cotidiano, porém este mesmo sujeito é quem de fato fato está incorreto. Em muitos Brasis, a forma “errada” de falar é o jeito certo.


Referências:

FAIRCLOUGH, N. Análise crítica do discurso como método em pesquisa social científica. Linha d‘Água, São Paulo, v. 25, n.2, p. 307-329, 2012.



MELO, I. F. Análise crítica do discurso: modelo de análise linguística e intervenção social. Estudos Linguísticos, São Paulo, v. 40, n. 3, p. 1335-1346, set./dez. 2011

MC LOMA E AS GÊMEAS LACRAÇÃO EXPLICAM AS SUAS GÍRIAS. @BuzzFeedBrasil. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=_6xR-a4q0SQ> Acessado em 03 de Novembro de 2018

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